Doomsday for the win!
É conspiração?
Doomsday foi lançado em 2008, mas chegou logo agora ao Brasil, junto da gripe suína!
Quando um vírus mortal ataca a Inglaterra, o governo se vê forçado a isolar a praga em uma região, construindo um muro ao redor da cidade. 30 anos de isolamento depois, o vírus ataca novamente. Cabe ao governo escolher uma equipe de especialistas para entrar na área proibida atrás de uma cura.
Informações Técnicas
Título no Brasil: Juízo Final
Título Original: Doomsday
País de Origem: Inglaterra / EUA / África do Sul
Gênero: Ação
Tempo de Duração: 105 minutos
Ano de Lançamento: 2008
Estréia no Brasil: 21/08/2009
Site Oficial: http://www.doomsdayiscoming.com
Estúdio/Distrib.: Europa Filmes
Direção: Neil Marshall
Elenco
Caryn Peterson … Vagrant Girl
Adeola Ariyo … Nurse
Emma Cleasby … Katherine Sinclair
Christine Tomlinson … Eden Sinclair
Vernon Willemse … David / Gimp
Paul Hyett … Hot Dog Victim
Daniel Read … Sergeant #1
Karl Thaning … Pilot
Stephen Hughes … Soldier #1 / Johnson
Jason Cope … Wall Guard
Ryan Kruger … Soldier
Nathan Wheatley … Patient “X”
Cecil Carter … DDS Assault Trooper
Jeremy Crutchley … Richter
Rhona Mitra … Maj. Eden Sinclair
retirado de: http://www.interfilmes.com/filme_19580_Juizo.Final-%28Doomsday%29.html
O que acontece se um vírus eclode na Escócia, matando milhares de pessoas? Não, elas não viram zumbis. Por mais que você se lembre de Resident Evil, a doença não é conspiração e a gripe suína nem estava aí quando o filme foi lançado (2008).
Com tanta gente infectada e morrendo, sem nenhuma possibilidade de cura, prevenção ou tratamento, a solução do governo é isolar o país com enormes muros que remetem à barreira romana. Quem entra e quem sai? Ninguém. Soldados atiram em quem insistir, mas com muita chantagem emocional, uma mãe consegue fazer com que os militares levem sua pequena Eden, recém atingida no olho por uma bala perdida.
A Inglaterra (e conseqüentemente todo o Reino Unido) está decadente lá pelo ano de 2035. E para piorar, o vírus Reaper está de volta. O governo inglês pretende tomar a mesma atitude escocesa, mas às escondidas, um dos líderes tem um plano: satélites conseguiram imagens de humanos no que já foi a Escócia. O problema é quem é que vai lá tentar achar os sobreviventes e, talvez, a cura com um tal de Kane? Pior: dentro de 48 horas. Sem problemas: temos uma femme fatale que mendiga cigarros e não liga muito para a vida. Além do mais, ela guarda uma única lembrança que a faz saber quem é: o endereço de sua casa, no país-fantasma em que, até então, jamais poderia ir.
E lá vai Major Sinclair, no “pretinho básico”, com o tapa-olho sistemático por debaixo de uma armadura supertecnológica. Ninguém se lembrou do veterano de guerra Solid Snake? Ninguém se lembrou da couraça do Raiden em Metal Gear 4? Tudo bem, a gente releva. O que às vezes é seu olho, também é uma câmera que registra num relógio tudo aquilo que “vê”.
Junto de uma equipe, Major Sinclair procura sobreviventes em Glasgow. Um dos parceiros, derretido por uma garota fragilizada, sai do tanque e a captura. Muito esperta, a “vítima” escapa e em agradecimento lhe corta a jugular. Bem,
antes disso, já vimos bastante sangue, bastantes crânios explodindo com tiros, dedos esmagados contra portões e vale lembrar que a classificação é de 14 anos. Também não deixemos de lado o fato de que nossa querida pátria tirou trinta minutos do filme Halloween para baixar a classificação para 16 e não tem nem metade da violência que há em Juízo Final.
A partir daí que começa a esquentar. A equipe descobre que não havia um ou dois sobreviventes, mas uma legião de… aborígepunks. Muito parecidas com os de Johnny Mnemonic (1995, Robert Longo), essas pessoas têm cabelos coloridos, moicanos e tatuagens tribais por todo o corpo atacam os soldadinhos hi-tech que vieram da caixa de bonecos de ação Inglaterra. Seu líder, a grande estrela do sistema solar, é um misto de Billy Idol com Iggy Pop. Sol é sádico, psicopata e mantém um escravo em roupas de látex. “Você gosta de sentir dor?” A Major, depois de levar vários socos no estômago, tem o brinco arrancado pelos dentes de Sol. O sangue só durou naquela cena mesmo.
Presa e sem armas, o que a Major poderia fazer? Lá fora, a festa rolava ao som de Spellbound, de Siouxsie and the Banshees. O líder político-ideológico pseudo-Inca era mais um rockstar com suas groupies dançando semi-nuas que qualquer outra coisa. O panis et circensis são punks de kilt fazendo paródia patriótica. Eles descobriram que há vida por detrás dos muros! Eles descobriram que a Major parece a Aeon Flux (Karyn Kusama, 2005) e eles vieram do
mesmo filme! Então o pau vai comer. Kane, o cientista que mentiu para eles até agora, ia virar refeição para o povo. A garota do chefe é quem faz as honras ao acender a fogueira sob o homem. Enquanto isso, Sinclair engana um guarda burro (sempre, né?) e escapa da cela.
Uma garota presa pede por socorro: mas por que uma Major como Sinclair vai soltar a loirinha a la t.A.T.u.? O motivo vem com a informação de que ela sabe onde está Kane e mais, que o cara é seu pai e que Sol é seu irmão. Família saudável, hm? As duas fogem e encontram os parceiros de Sinclair que sobreviveram ao ataque. Também acham um amigo, um pseudo-Legolas. Por quê? Bem, enquanto Sinclair e os outros carregam metralhadoras e um olho cibernético, o tio aí usa arco e flecha.
Aí começa a mindfuck. Se você imaginava um filme de futuro caótico, vai alegrar seu nerd medieval interior ou torturar seu geek futurista. As personagens caminham pelas gramíneas escocesas em busca de Kane. Pela floresta, Legolas, Aragorn e Sinclair são surpreendidos por nada mais e nada menos que um cavaleiro em sua armadura férrea. Sobre o cavalo, o carrasco de Kane ameaça os viajantes. Major opta pela redenção: claro, certamente ela vai chegar viva aos domínios de Kane.
Domínios de Kane? É, o velho que um dia foi Alex DeLarge mora num castelo, meus queridos. “Em terra de infectado, o imune é rei”. Ele juntou seus próprios servos, montou sua economia medieval, encarnou o Tolkien. Na sala principal, o sacerdote mexe num grande livro (Bíblia segundo Kane?). O rei dá a sentença: quem mandou eles virem e mostrar que existe algo além de suas palavras? Calabouço neles, arena nela. Major Sinclair de calça e blusinha versus cavaleiro de armadura, cavalo e lança. Lança e maça, para ser mais exato. Quem ganha sob as vaias da platéia? Nem conto, só deixo aspas: “Se eu perdi alguma coisa? Perdi o juízo”.
Castelo sendo atacado! Orcs, trolls, dragões? Que nada. O bandinho da Major foge e pega o mesmo atalho de antes, um túnel subterrâneo antes usado por militares. O que eles acham lá dentro? Um super carro sport para dar inveja em qualquer 007. Prático, normal. Também acharam rádios comunicadores. Mas a essa altura já se tinham passado aquelas 48 horas do prazo (ainda bem, né?). Sinclair se comunica com alguém na Inglaterra, que já estava bastante ferrada pelo vírus . Dá um relatório geral.
Fugido dali, a milhares de quilômetros por hora em alguma rodovia, eis que surge um carro de polícia que quase deixa a Major no chinelo. Sol está lá dentro e traz reforços. O cara pula sobre o carro, mais dois invadem pelas janelas, atrapalham a motorista, desacordam a loirinha. É uma orgia thriller. Confesso que é até engraçado, remeteu-me um pouco Planeta Terror, de Robert Rodriguez. Ah! E ninguém perde o controle do carro, ok? O alinhamento foi feito há… uns trinta anos. Mas está tudo certo.
Depois de muito tentar se livrar de Sol, o punk surtado finalmente se ferra e morre esmagado por um carro. Fim da ópera: os ingleses vêm resgatar a equipe de Sinclair que se resume a um soldado e a loirinha sobrevivente. Ela vai embora, talvez virar vacina, a Major resolve voltar a ser Eden e visitar sua casa. Lá encontra uma foto de sua mãe e pela primeira vez mostra sentimentos (senão vontade de fumar): chora ao saber quão bonita ela era.
Se ela vai sair dali? Não! Está louco? Os aborígenepunks estão lá ainda, sem líder. Com a cabeça de Sol na mão, Sinclair se torna a rainha e assim termina a maior mescla de elementos que fazem um thriller bom: carro esporte, explosão de carros, mulher bonita, sangue, cabeças rolando, tiros, femme fatale, políticos, epidemias, multidões e um toque de clássicos (painel com cena de Metropolis, de Fritz Lang). Eu dou cinco estrelas para um filme que nem precisou pôr seios e bundas!
Origem do Rockabilly
Texto por: Lidia Zuin
Revisão: Paula Bassi
originalmente disponível e produzido para: http://www.centrocultural.sp.gov.br/saiba_mais/musica_rockabilly_2009_07.asp
O gênero surgiu quando a música produzida pela comunidade negra nas igrejas, com guitarra elétrica e percussão, saiu do ambiente sagrado e passou pelo blues, pelo boogie e demais estilos até se transformar no rock. O Rockabilly trouxe muitas influências da música country e western, além do blues e o bluegrass – o cantor Carl Perkins costumava dizer que o estilo era um “blues com uma batida country”.
Denominada um “pré-rock caipira”, essa vertente tem sua história delineada pela inovação do hillbilly (música country americana influenciada por composições irlandesas) e como a nova música seria vendida. A origem do rockabilly está muito relacionada a uma pequena gravadora na cidade de Memphis: a Yellow Sun, de Sam Phillips, que mantinha uma linha de produção composta apenas por artistas negros que tocavam blues, como as bandas Chess in Chicago e RPM on The Coast. No entanto, quando Elvis Presley procurou a Yellow Sun para gravar em homenagem a sua mãe a música That’s All Right, por U$3,89, Sam abriu uma exceção. Mais tarde, aquele desconhecido jovem branco seria coroado como Rei do Rock. Depois disso, outros músicos brancos foram aceitos por Phillips: Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, Johnny Cash, Charlie Rich, Roy Orbison (The Big O), Sonny Burgess, Warren Smith, Onie Wheeler e Malcolm Yelvington.
Apesar da cidade de Memphis, Tennessee, ter se tornado a capital do rockabilly, no sul, mais artistas se aproximavam do estilo. Na Califórnia, Ricky Nelson, graças ao seu guitarrista James Burton, de Louisiana, passou a fazer parte dessa estatística que, aliás, era predominantemente composta por homens – com exceção da cantora e guitarrista Wanda Jackson.
Também conhecido como cat music, o rockabilly era o subterfúgio de jovens que desejavam fugir do padrão musical seguido pelos pais. E esse caminho era novo, porque não chegava a se comparar ao primeiro hit rock, a canção Rock Around the Clock, de Bill Haley and his Comets, nem com o som feito pelos cantores Rou Acuff e Ernest Tubb: era, na verdade, uma fusão desses artistas.
Tecnicamente, a sonoridade do rockabilly segue um ritmo uptempo (acelerado), acentuadas batidas da percussão e o slapped bass (efeito de vibração da corda do baixo elétrico após ir de encontro aos trastes e à escala do instrumento). Essas características foram bem demarcadas pelo trio formado por Elvis Presley e Scotty Moore nas guitarras e Bill Black no baixo. Não só esses instrumentos se inseriam na cena rockabilly, mas também a bateria e o piano, bem representado por Lewis.
Outro efeito inserido nas músicas veio de experimentos realizados por Sam Phillips junto de Leonard Chess. Em Chicago, os dois usaram canos e a acústica de um banheiro para criar eco. Os críticos da época costumavam dizer que o efeito ecoado era uma maneira de disfarçar falhas no vocal, além de muitas vezes deixar a letra das músicas indecifráveis.
No entanto, as canções rockabilly não tinham em suas palavras um grande significado. Muito freqüentemente, os temas eram brincadeiras de criança, marcas de roupa, rimas infantis e grandes abstrações que chegavam a compor odisséias no espaço. Esses tópicos podem ser conferidos em música como Put Your Cat Clothes On, de Carl Perkins; Be-Bop-a-Lula, de Gene Vincent; Ooby Dooby, de Roy Orbison; Tongue Fred Joll, de Charlie Feathers; Flyin’ sauces Rock’n'Roll, de Lee Riley and the Little Green Men.
Já o canto era basicamente composto por espasmos, repetição de sílabas e vibrações vocais, como em Baby Let’s Play House, de Elvis Presley. Outros artistas como Buddy Holly, Freddy Fender e Narvel Felts também seguiam esse estilo em seu canto.
O rockabilly montou sua imagem como um representante da rebeldia e também do jovem espirituoso. Seu início está marcado pela figura de Elvis, não somente por sua qualidade como artista, mas pela notoriedade que conseguiu ao redor do mundo. Sua maciça influência, presente até os dias de hoje, levou Ricky Nelson, em 1957, a fazer um rockabilly de subúrbio, levando consigo o repertório e o sorriso de Elvis. Já Gene Vincent, um ano antes, preferia trazer de volta o jovem Presley, com seu grande e brilhante topete.
O desaquecimento do rockabilly veio com uma série de fatores envolvendo os maiores representantes da cena: em 1958, Elvis entrou para o exército; o escândalo do casamento de Jerry Lee Lewis com sua prima Myra Gale Brown de 14 anos; o acidente de carro sofrido por Carl Perkins, em 1956, e a queda na venda da canção Blue Suede Shoes; o acidente de táxi, em 1960, que provocou um grave dano numa das pernas de Gene Vincent e a morte de Eddie Cochan, noivo da compositora Sharon Sheeley, que também estava no veículo.
Quase todos os artistas voltaram a ter a mesma vida de antes da fama. Sonny Burgess, por exemplo, passou a trabalhar como caixeiro viajante. Outros quiseram voltar com a música gospel e country e ainda havia os persistentes Billy Lee Riley e Warren Smith, que se mantiveram no rockabilly. No fim, o rock ficou entregue a bandas como Beatles, Elton John e Gary Stewart. Novas vertentes nasceriam e mais músicos tornariam-se o sucesso de décadas e gerações.
Fontes:
GURALNICK, Peter in. The Rolling Stone Ilustrated History of Rock’n'Roll. Rolling Stone Press, 1976-1980
Rock – A música do século XX – Vol. 1
Sapo Banjo
texto: Lidia Zuin
edição e revisão: Paula Bassi

A banda Sapo Banjo foi formada em 1996, com a ideia de mesclar o gênero ska com outros estilos musicais, principalmente o hardcore e o ragga. Suas letras abrangem o despojamento típico do ritmo de origem jamaicana, mas também abordam questões políticas.
O primeiro disco, lançado em 2001, é homônimo à banda. Desse trabalho, foram produzidos videoclipes para duas faixas: Evolução e Rude Boy. O mais recente, Carro de Som, foi lançado em 2007 em comemoração aos 10 anos de banda. Também foram gravados dois EPs, o Skataplá (1997) e o Cassino (2004). O Sapo Banjo já fez várias apresentações fora do Brasil – na Suécia, Estados Unidos, Holanda, Alemanha e Argentina, dividindo o palco com bandas como Millencolin, Voodoo Flow Schools, Garotos Podres, Nação Zumbi, Dance of Days, entre outras.
O Skarnaval, festival que acontece todos os anos uma semana antes do carnaval, no Hangar 110, é organizado pela banda, que se apresenta no formato Sapobanjo & Orquestra, reunindo músicos que ajudam a compor o melhor do ska instrumental. Os garotos do Sapobanjo também tocaram em outros grandes festivais, como o Bananada e o Sons de uma noite de verão, no Sesc Pompéia.
O Sapo Banjo planeja lançar um DVD com material de seus 13 anos de estrada.
Repertório
Letras e músicas por: Felippe Freire (Pipeta)
Cassino
Sapo rastaman
Balada
Carro de som
Ferrou
Musica pra bailar
Evolução
Louco pirado
Babylon
Skaravana
Monstro do rock
Larga mão
Vou te contar
Coragem
Skatarrone
Skataplá
Não sei
Rude boy
Veja também
fotolog.net/sapobanjo
tramavirtual.com.br/sapobanjo
myspace.com/sapobanjo
fotolog.com.br/skarnaval
Vídeos no YouTube:
Trecho de Skataplá no show Mais sons de uma noite de verão, realizado no Sesc Pompeia
Video Clipe de Larga Mão de Treta ao Vivo no Hangar110
Vídeo-história da banda
Carro de som
Música para bailar
Texto originalmente publicado em http://www.centrocultural.sp.gov.br/saiba_mais/musica_sapobanjo_2009_05-23.asp
Lívio Tragtenberg
texto: Lidia Zuin
revisão e edição: Paula Bassi
Apesar de suas apresentações terem sido inseridas na programação de música clássica do Centro Cultural São Paulo, Livio Tragtenberg transita por várias áreas, sendo como compositor, diretor de espetáculos multimídia ou produtor musical. Suas composições são direcionadas a orquestras, grupos vocais e instrumentais, cinema, vídeo, ópera, teatro e dança, além da criação de instalações sonoras. Seus instrumentos são clarinete, piano e saxofone, mas, por ora, Tragtenberg está adotando o mouse para suas produções de música eletrônica (apresentação do dia 28/05).
Criador da Nervous City Orchestra (Miami, 2005) e das Orquestras de Músicos das Ruas em São Paulo (2004), Rio de Janeiro (2009), Berlim e Miami, suas principais influências são Augusto e Haroldo de Campos, Gilberto Mendes, Erik Satie, Frank Zappa e Adoniran Barbosa. No campo cênico, vem desenvolvendo uma parceria com o coreógrafo e diretor teatral austríaco Johann Kresnik. A obra de Livio também pode ser encontrada em livrarias, com seus três livros técnicos: Artigos Musicais, Contraponto – Uma Arte de Compor e Música de Cena.
Livio já recebeu duas bolsas de composição: uma pela Guggenheim Foundation, para a ópera Tatuturema (1990), sobre textos de Joaquim de Sousa Andrade (Sousândrade), e outra, a Bolsa VITAE de Artes, para a ópera O Inferno de Wall Street (1987).
Os CDs OTHELLO, Hansel und Gretel/ Pasolini Suíte, Anjos Negros, São Paulo, A Symphonia da Metrópole (2000), Bazulaques Brasileiros, Temperamental (com Décio Pignatari, 1993), Através da Janela (trilha sonora do filme homônimo de Tata Amaral), Brava Gente Brasileira (trilha do filme homônimo de Lucia Murat), Coleção Novas Danças Brasileiras (2003), Orquestra Mediterrânea (2005) e NEUROPOLIS (criação coletiva com a Orquestra de Músicos das Ruas de São Paulo, 2007) são exemplos do trabalho de edição feito pelo músico autodidata que, desde o início, teve convivência com a música popular, jazz e música contemporânea.
As participações de Tragtenberg em Oficinas-montagem repercutiram em espetáculos como, por exemplo, 24 Operas por dia (SESC Consolação, 2003) e Bailado do Deus Morto (Oficina Oswald de Andrade, 1987 e 2007).
No ano passado, em 2008, Livio foi responsável pela direção musical do espetáculo São Paulo de Piratininsky, baseado em textos de Jacó Guinsburg, no Centro da Cultura Judaica em São Paulo. Neste mesmo ano, também criou a instalação sonora Jardim das 4 Têmperas, no Horto Florestal de Ouro Preto, Minas Gerais. Como coordenador musical, participou da I e II Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, na Cinemateca Brasileira. Também criou a Berliner Strassenmusiker Orchester.
Com o grupo Som do Meio Fio, que traz integrantes da Orquestra de Músicos das Ruas de São Paulo, montou o show Personas Sonoras, em que há uma interação entre artistas franceses, israelenses e brasileiros, em aparição virtual. Recentemente, lançou o show Guarania Beats, em que combina a música tradicional paraguaia cantada e batidas eletrônicas noise. Livio também é responsável pela criação da Blind Sound Orchestra, composta por músicos cegos que reproduzem canções em filmes silenciosos e, sendo assim, também atuou como curador musical da I Jornada de Cinema Silencioso da Cinemateca Brasileira, em São Paulo.
No Centro Cultural, Livio Tragtenberg em três concertos-conceitos apresenta composições de sua autoria. No primeiro, dia 14/5, com a participação de sua irmã, a cantora Lucila Tragtenberg, o músico trará peças para voz com origem em textos de Haroldo de Campos, entre outros autores. Já no segundo, dia 21/5, Livio dará mais enfoque às suas produções na música eletrônica, contando com interações sonoras como o ruidismo, soundcapes e colagens. No terceiro e último, dia 28/5, há destaque para peças que englobam o Teatro Musical, tal qual a conferência-paródia o q vc qr sr qnd crscr?.
Veja também
MySpace de Livio Tragtenberg:
myspace.com/liviotragtenberg
Alguns outros projetos do músico:
myspace.com/somdomeiofio
myspace.com/strassemusik
myspace.com/blindsoundorchestra
myspace.com/orquestrademusicosdasruas
Entrevista com o músico:
http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2591,1.shl
Originalmente publicado em: http://www.centrocultural.sp.gov.br/saiba_mais/musicaclassica_liviotragtenberg_2009_05-14a28.asp
O filme que é exibido e gravado ao mesmo tempo
Idealizador do gênero esclarece as ideias de seu projeto
texto e entrevista: Lidia Zuin
edição: Paula Bassi

Os atores Gus Stevaux e Tatiana Eivazian em cena do filme Fluidos
CineVivo é uma experiência múltipla, em que aspectos televisivos, cinematográficos e teatrais se encontram. Entretanto, Alexandre Carvalho, criador do gênero, criador do gênero, moldou Fluidos, seu primeiro longa-metragem no formato, de acordo com técnicas próprias do cinema. Assim, a performance dos atores é direcionada à câmera, os enquadramentos são característicos da linguagem e os espectadores assistem ao filme, que é ao vivo, em uma sala de cinema.
É importante distinguir Cinema Vivo de Cinema Ao Vivo. Este foi um projeto idealizado para o Festival do Rio, em 2007, quando VJs, videoartistas e cineastas se reuniram no palco do Odeon, para um remix experimental de imagens e sons.
Formado em cinema pela USP, Alexandre está cursando mestrado em Interatividade. Tem como influência mestres do cinema como o dinamarquês Lars Von Trier – por conta de suas experiências com a linguagem cinematográfica -, o espanhol Pedro Almodóvar e, da produção nacional, Fernando Meirelles e Chico Teixeira, diretor do filme A Casa de Alice.
O filme Fluidos, produzido pela A.S.C. AUDIOVISUAL, é ganhador do Edital Primeiras Obras, da Prefeitura Municipal de São Paulo e se dispõe em quatro apresentações e dois ensaios abertos.
Como funciona?
A estética não conta com direção de arte, além de utilizar pouca iluminação artificial. O diretor, entretanto, faz a ressalva de que “poderia fazer um formato do CineVivo montado em um set de filmagem”, o que não é a proposta de Fluidos.
Apesar de toda essa aproximação com a realidade proposta pelo CineVivo, quase tomando um aspecto naturalista, o filme vai contar com trilha sonora diegética (dentro do contexto ficcional). “A trilha vai ser uma que poderia existir no próprio lugar. Por exemplo, a música estar tocando no bar. Isso serve até para não quebrar o aspecto cotidiano”. O conteúdo vai ser essencialmente instrumental e as músicas surgirão em poucos lugares.
Quanto aos aspectos técnicos, serão utilizadas três câmeras e a transmissão será feita por meio de cabos e por ar (método usado pela televisão em programações ao vivo). Alexandre e sua equipe estão há seis meses pesquisando os melhores métodos. A Internet 3G já foi cogitada, mas, como apontou o diretor: “O problema é tanto estrutural quanto financeiro”. Ele acredita que o conflito nem esteja tão relacionado ao financiamento, mas à própria insuficiência da tecnologia disponível no Brasil.
Haverá também cenas gravadas previamente, as quais farão parte da narrativa. Os personagens se contextualizarão em outros cenários, como num quarto. Estas são partes essenciais quanto à temática do filme.
O enredo
Fluidos quer mostrar o cotidiano de um Centro Cultural por meio de três duplas de personagens interagindo em torno de uma mesma temática. Todas as histórias falam sobre a atualidade do vídeo, da imagem gravada por webcam, celular ou câmera escondida. Ou seja, a exposição a que todos estão sujeitos. “Hoje, nossa vida está sempre sendo gravada de alguma maneira”. Os vídeos pré-gravados têm muito a ver com isso.
Não obstante, também serão explorados conflitos de relacionamento. “É um filme bem contemporâneo, no sentido da dificuldade que as pessoas têm com o afeto. Atualmente, existe uma dificuldade de toque, de relacionamento. Tudo é muito momentâneo. Acontece naquele momento e depois já é outra coisa.”
Os atores e os personagens
Os três núcleos são formados por um casal escravo de seus próprios fetiches (gravar suas relações sexuais), uma mulher que apenas tem contato com seu marido através da internet e um garoto que expõe sua vida na televisão, por meio de um programa sensacionalista.
Todos eles se encontram fisicamente, mas as histórias não se cruzam. Não há interferência. Existe um roteiro a ser seguido e as falas são previstas para se encaixar em 70 minutos de reprodução, “só que [o roteiro] está sujeito ao imponderável do ao vivo, às interferências”.
Alexandre diz que os atores vão poder agir livremente, mas sem perder o foco do enredo. “Existe um fio narrativo, um sentido na história que não pode ser perdido. Mas eles vão ter que lidar com qualquer interferência. Por exemplo, se alguém interagir com a câmera, o ator vai ter que lidar com isso. Os atores precisam de duas coisas: saber lidar com o ‘ao vivo’, com o momento, com o tempo real e atuar para a câmera, que é o que interessa”.
De onde surgiu a ideia?
Alexandre relaciona o CineVivo com os conceitos explorados em seu mestrado em Interatividade. “Essa proximidade com o público é uma forma de interatividade. (…) Inclusive, o Cinema Vivo não era, mas vai ser minha dissertação agora”. O cineasta acrescenta que já faz um tempo que a ideia formal do CineVivo surgiu: “Eu lembro de, no ônibus, estar pensando: mas e se estiver acontecendo uma cena aqui, ao vivo, e ao mesmo tempo passasse numa tela? Então, eu me perguntava: quanto dinheiro vai precisar para isso?”
Apesar das ligações feitas com o teatro, o cineasta afirma que não foi essa a sua intenção, uma vez que não tem proximidade com a técnica regida pelas artes cênicas.
Os espectadores
Com o nascimento da ideia do CineVivo, Alexandre não havia surgido também uma proposta quanto ao direcionamento de público. Tudo começou com uma pesquisa relativa às pessoas que freqüentam centros culturais. A partir daí, ele criaria ficções de um cotidiano distinto que se enquadraria ao local analisado.
O cineasta não tem pretensões quanto ao seu trabalho. “Eu acho que é uma experiência e é assim que eu quero que as pessoas vejam”. Apesar disso, em um ensaio realizado em espaço público, houve um mal entendido perante uma cena mais sensual do casal de namorados que faz parte da trama. Por conta disso, em junho, Alexandre se dispôs a abrir um debate no Centro Cultural da Juventude para elucidar melhor seu trabalho.
“Como a gente está trabalhando muito perto das pessoas, tudo serve para retratar o cotidiano. A gente está buscando essa realidade, mas vai isolar o local, para não ficar avisando um por um que é um filme. Às vezes, as pessoas não percebem que tem câmera e entram nesse jogo de ficção. Eu não sei exatamente o que acontece. Nem era nosso objetivo principal, o das pessoas entrarem e não perceberem o que está acontecendo. Mas pelos ensaios, a gente vê que está acontecendo”. Dessa forma, os transeuntes acabam se tornando figurantes.
Originalmente publicado em: http://www.centrocultural.sp.gov.br/saiba_mais/cinema_cinevivo_2009_05-16a30.asp
O Impressionismo Francês na Música
texto: Lidia Zuin
revisão: Paula Bassi
A série de apresentações ministradas pelo pianista Miroslav Georgiev contará com um repertório composto por Reynaldo Hahn, Gabriel Fauré e Claude Debussy, músicos que faziam parte do movimento impressionista. Essa vertente artística, surgida no século XIX, teve suas criações de maior destaque na área da pintura, com grandes nomes como Claude Monet e August Renoir, na literatura, misturando-se ao movimento simbolista, com os poetas Charles Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine, e na música, com os compositores Claude Debussy e Maurice Ravel.
Os músicos começaram a se inspirar em conceitos da arte impressionista por volta de 1890, na França. Seguindo a influência simbolista, movimento muito relacionado à literatura daquela época, os compositores buscavam descrever imagens, tanto que várias obras receberam nomes relacionados a paisagens, como Reflexos na água, de Debussy.
A música impressionista rege o abandono da música tonal. Isto significa que as composições não seriam mais estruturadas conforme a eleição de uma das doze notas da escala (sete básicas e as restantes semitons). A novidade estava na sustentação a partir de escalas modais, que eram compostas de acordo com recombinações de conjuntos de notas escolhidas. Esta se tornaria a base das melodias impressionistas que, além de tudo, acabariam sendo influenciadas por técnicas orientais, pela música popular européia e por elementos medievais.
O fim do movimento impressionista na música foi marcado com Prelúdio para a tarde de um Fauno, composta por Debussy. Esta obra busca ilustrar um poema do poeta simbolista Stéphane Maallarmé.
Claude Debussy

Claude Debussy ao piano no verão de 1893, na casa de campo de Luzancy (do seu amigo Ernest Chausson)
Considerado o pai da música moderna, foi a principal influência do movimento impressionista na música. Suas atitudes reivindicadoras proporcionaram uma mudança no gosto público que, ao se libertar dos tratados de harmonia e composição, começaram a apreciar a música conforme ela chegava aos seus ouvidos.
O francês criou um sistema de acordes isolados, libertando-se da dureza e frieza que regia a tradição musical quanto à harmonia. Os acordes de Debussy tentam remeter às mesmas pinceladas que Monet e outros pintores impressionistas aplicavam sobre telas. Devido a esse trabalho, o músico foi aclamado como impressionista.
Debussy também trilhou caminhos pela música oriental, adotando vários de seus conceitos. O resultado disso foi a inovação das escalas de tons inteiros e as escalas pentatônicas. O instrumentista também teve contato com gêneros americanos, tomando base no jazz americano e na música negra. Debussy compôs peças que se mantêm valorosas pelo repertório da música orquestral, de câmara e na ópera (em Pelléas et Mélisande, ele reitera a rejeição ao formalismo e à linearidade).
Ouça a música Quand j’ai ouy le tambourin, de Claude Debussy.
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Reynaldo Hahn
Nascido em 1875, Caracas, na Venezuela, foi para a França aos três anos. Com onze, foi admitido no Conservatório de Paris e compôs suas primeiras obras com 14. Hahn trabalhou como diretor de orquestra no cassino de Cannes, na Ópera de Paris. Também foi crítico do Fígaro e intérprete de Mozart. Na direção, fez parte do espetáculo Don Giovanni, em Salzburgo. O latino-americano musicista morreu na França, em 1947. Ao lado, foto de Reynaldo Hahn pelo fotógrafo francês Félix Nadar.
Seu repertório é composto por óperas como Le marchand de Venise, bailados (Lê bal da Béatrice d’este e La fête chez Thérese), além de várias operetas, tais quais a conhecida Ciboulette. Também se encontram composições de músicas de cenas, comédias musicais (para Mozart, de Sacha Guiltry), músicas de câmara, peças para piano e mais outras canções que ele mesmo interpretava ao tocar piano.
Gabriel Urbain Fauré
Francês, nascido em Pamiers, 1845, o artista foi aluno, na escola Niedermever, de Camille Saint-Saëns, quem, posteriormente, tornou-se uma de suas principais influências. Em 1866, Fauré começou a tocar órgão na igreja de Saint-Sauver, em Rennes, para depois ir à igreja Madeleine, em Paris.
Trinta anos após ter sido organista, Fauré foi nomeado professor de composição pelo Conservatório de Paris. Mais tarde, em 1905, tornou-se diretor do Conservatório e permaneceu no cargo por quinze anos. Durante essa época, foi professor de Ravel, Aubert, Koechlin, Dukas e Schmitt. Ao lado, retrato de Gabriel Fauré pelo pintor italiano John Singer Sargent.
Foi com Debussy e um de seus alunos, Ravel, que Fauré dominou as técnicas modernas da música francesa. Exímio compositor de música de câmara e bastante exigente quanto à forma, Fauré conseguiu reunir as novidades em seus trabalhos e fez surgir melodias amplas e flexíveis.
Em lieder (forma poética que aborda temas pastorais), o músico francês ressaltou o intimismo e o recolhimento, a discrição e a serenidade. Nessas obras, Fauré deu maior preferência, realmente, à música de câmara e gêneros banidos pelos operistas. Destacam-se os ciclos A boa canção (1891-1892), em que se destacam nove melodias inspiradas em obras de Paul Verlaine, Canção de Eva (1907-1910) e O jardim fechado (1915-1918), em que se encontram versos de Charles van Lerbeghe.
No formato de missa, seu maior trabalho foi no Réquiem Op. 48. Diferente de outras obras do gênero, Fauré quis pacificar o dies irae e amansou o in paradisum. Na música de câmara, gênero de destaque do compositor, compôs dois quintetos para piano e duas sonatas para piano e violino, além de duas sonatas para piano e violoncelo.
Ouça a música Pièce for Oboe and Harp, composta por Gabriel Fauré. Arranjos para fagote, tocado por Kathleen Walsh, e piano, por Amy Crane.
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Veja também:
O violinista Winston Ramalho e o pianista Paulo Gori fazem concerto no dia 21/6, com três Sonatas francesas para violino e piano, com obras de Fauré, Debussy e Ravel. Saiba mais…
http://www.concerto.com.br/agenda.asp?d=11&m=6&a=2009&tipo=s
http://www.angelfire.com/pa/genesis4/impressionismo.html
http://www.artesbr.hpg.ig.com.br/Educacao/11/interna_hpg3.html
http://www.classicos.hpg.ig.com.br/hahn.htm
http://www.classicos.hpg.ig.com.br/faure.htm
originalmente publicado em: http://www.centrocultural.sp.gov.br/saiba_mais/musicaclassica_impressionismofrances_2009_06-04.asp
Poe, Edgar
texto: Lidia Zuin
edição: Paula Bassi
Para comemorar os duzentos anos de nascimento de um dos precursores da literatura fantástica e de terror, a companhia O Grito estreia a peça Poe, Edgar. Em seu sexto trabalho, o diretor Roberto Morettho recria a atmosfera obscura regida pelas temáticas do escritor americano. Serão seis atores os responsáveis pela representação de três das obras mais populares: O Corvo, O Gato Preto e Os Crimes na Rua Morgue.
Numa escuridão do palco quebrada por velas é onde a Cia O GRITO, fundada em 2003, no Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP, mostra suas habilidades. O grupo tem adicionados ao seu repertório, também, os espetáculos O Armário Mágico, Caça aos Ratos, A Terra Onde Nunca se Morre, Marujo o Caramujo e a Minhoca Tapioca e O Caso da Cãs. Em Poe, Edgar, O GRITO traz os atores Alessandro Hernandes, Abel Teixiera, Leia Rapozo, Ligia Borges, Carol Cashie e Perla Frenda.
Na equipe de produção, Eduardo Parisi, Lilih Curi e Tatiana Guimarães foram responsáveis pela composição do espetáculo. O diretor Morettho também recebeu colaboração da autora Paula Chagas Autran para a construção da dramaturgia e do maestro Luciano de Carvalho para a trilha sonora, além de Carol Autran e Silvestre J.R. para a iluminação.
Os Crimes da Rua Morgue (1841)
Que canção cantavam as sereias? Que nome tomara Aquiles quando se ocultou entre as
mulheres? Perguntas são estas de embaraçosa resposta, é certo, mas que não estão fora
de possíveis conjeturas.
Assim começa o conto de Poe que recebeu o título original de The Murders in the Rue Morgue (Os Assassinatos da Rua Morgue). Aqui há o personagem C. Auguste Dupin, considerado precursor de Sherlock Holmes, que é responsável pela investigação do sinistro assassinato de duas mulheres, mãe e filha. A partir daí, o detetive consegue resolver o enigma desse ato de crueldade, cometido no quarto andar de uma casa na Rua Morgue, em Paris.
A narrativa já foi adaptada para o cinema diversas vezes, tendo dois filmes homônimos: um dirigido por Robert Florey, em 1932, e outro, feito para televisão, por Jeannot Szwarc, em 1986. Phantom of the Rue Morgue (1954), de Roy Del Ruth, também segue a mesma história. O conto também serviu de base para as músicas Murders in the Rue Morgue, da banda Iron Maiden e Little Disfunk You, do grupo sueco The Ark.
O Corvo (1845)
Este conto trata da misteriosa figura de um pássaro negro que pousa sobre o busto de Pallas (Atenas), na residência de um moribundo homem a sofrer pela perda de Lenora (Lenore), mulher que amava. O poema O Corvo (The Raven) trata de um implacável, insensível e cruel fato: a morte. A própria estrutura literária escolhida por Poe representa quão perpétua é a temática fúnebre: as 18 estrofes que compõem a obra são intercaladas com versos sempre finalizados em more (mais), sendo como palavra ou como sufixo. Nevermore (nunca mais) é a expressão que mais se repete, uma vez representante do som reproduzido pelo Corvo.
| E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura Com o solene decoro de seus ares rituais. “Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado, Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais! Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.” Disse o Corvo, “Nunca mais” Traduzido por Fernando Pessoa |
Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling, By the grave and stern decorum of the countenance it wore, “Though thy crest be shorn and shaven thou,” I said, “art sure no craven, Ghastly, grim, and ancient raven, wandering from the nightly shore. Tell me what the lordly name is on the Night’s Plutonian shore.” Quoth the raven, “Nevermore“ Edgar Allan Poe |
O poema também foi traduzido para o português por Machado de Assis e para o francês, por Charles Baudelaire e Stéphane Mallarmé. No cinema, o filme O Corvo (1994), de Alex Proyas, foi uma adaptação de uma história em quadrinhos escrita por James O’Barr, que teve sua maior influência na obra de Poe. O escritor é remetido várias vezes, sendo por citação ou por encenação de um costume que as crianças tinham ao avistar Edgar: elas imitavam um corvo e Poe retribuía dizendo nevermore.
O Gato Preto (1843)
“Quando falávamos da sua inteligência (a do gato), a minha mulher, que não era de todo impermeável à superstição, fazia frequentes alusões à crença popular que considera todos os gatos pretos como feiticeiras disfarçadas.”
Culpado pela morte de sua mulher, um homem é condenado à forca. Este mesmo personagem é, também, o narrador do conto em que ele descreve um suposto gato preto de índoles demoníacas e sobrenaturais que teria o levado a cometer tal crime. Essa história é tida como um estudo da psicologia da culpa, além de ser considerada próxima ao conto The Tell-Tale Heart, também escrito por Poe.
A repercussão de The Black Cat é grande. Desde o século em que Poe viveu, já havia um grande público fã da ficção: o cabaré Le Chat Noir, fundado em 1881 por Rodolphe Salis, recebeu este nome por influência do escritor americano, de Baudelaire e de lendas francesas. No século XXI, quem retomou Edgar foi o cinema, com duas adaptações de mesmo nome: uma lançada em 1941 e outra, dois anos depois. A história volta em 64, com a trilogia de Roger Corman, Tales of Terror.
Veja também:
Saiba mais sobre Edgar Allan Poe e confira mais referências de seus poemas em obras de arte no site: http://www.poebrasil.com.br
Originalmente disponível em: http://www.centrocultural.sp.gov.br/saiba_mais/teatro_poeedgar_2009_05-15a07-05.asp
Na Contramão da Sociedade
Minutos de silêncio pela arte
matéria: Lidia Zuin
edição: Paula Bassi
A oficina de desenho com modelo-vivo começa às 14h30. De quarta-feira, na Sala de Oficinas 2; de sexta, no Espaço Oficinas. A mudança de local ocorre por conta da abordagem dos modelos: no primeiro dia, quando a aula acontece em uma sala fechada, eles posam nus. Na sexta-feira, a atividade acontece em um espaço semi-aberto e eles trabalham vestindo roupas íntimas. Não há por que ter vergonha, como disse a modelo-vivo Carla Barbisan: ela se vê como um objeto de estudo. O olhar direcionado a si não é aquele mesmo olhar de, como ela mesma comentou, quando está trajando roupas de banho em uma praia. São artistas plásticos que observam a dupla de modelos – ela e Juliano Hollivier, seu amigo e companheiro em alguns trabalhos.
O homem de estatura média, moreno e de cabelo curto chegou na sexta pouco antes do início das atividades. Vestia roupas esportivas e carregava uma mochila nas costas. Dali tirou uma garrafa plástica que outrora foi embalagem de água gaseificada. Enquanto debruçava-se sobre o bebedouro perto à porta de entrada do salão, ele recordou a novidade de hoje: o dia em que além de posar, iria falar um pouco sobre si. Uma fuga da rotina, como ele mesmo comprovaria, mais tarde: “Quando eu comecei a trabalhar [como modelo-vivo], achei que era uma maneira muito interessante de expor e fazer a expressão corporal. Seria fazer o trabalho do ator, só que sem voz”. Juliano, bacharel em piano e ator por formação, é tão familiar aos participantes que uma pequena senhora japonesa, muito amigável, ofereceu-lhe chocolate quente após confessar que enquanto desenha esquece do mundo. O artista aceitou a bebida, bastante grato.
O modelo-vivo subiu sobre o pequeno palco central e, circundado por dezenas de pessoas que já haviam chegado, começou a retirar as peças de roupa como se estivesse sentado sobre a cama, reservado em seu quarto. Naquele momento, havia ainda, entre os participantes, a dúvida sobre a presença da outra modelo, Carla. Ninguém sabia. Mas Juliano estava preocupado em se preparar para os seguintes minutos em que precisaria congelar o seu corpo. Alongava-se, mexia-se e jogava os olhos para cima, por vezes podendo encontrar curiosos que passavam do lado de fora da sala. A orientadora Denise Brogiolo olhava para o relógio de pulso e murmurava que era preciso começar mesmo sem a representante feminina. E assim foi.
A primeira pose: dois minutos e meio. Juliano, sozinho, fazendo-se de estátua grega, olímpica – talvez a única parte estranha ao classicismo da cena seria uma tatuagem tribal que o homem exibe pouco abaixo do abdômen. O salão já tinha sido preenchido por pelo menos 45 pessoas, enquanto a capacidade seria de 40. A orientadora reclama da infraestrutura e afirma que demoraria pelo menos um mês para tomarem alguma providência. E mais gente chega, procurando uma cadeira para se sentar em algum canto. Algumas pranchetas estavam disponíveis para quem não se acomodava sobre a superfície da mesa.. No final, mais de 50 pessoas participaram da oficina: algumas ficaram sem cadeira, outras, sem prancheta e mais umas não ficaram nem com prancheta e nem com cadeira. Teve gente que sentou no chão e desenhou daquele jeito mesmo, que ficou em pé ou então que resolveu somente contemplar. E todos olham com a tênue razão de enxergar, manter-se atento o suficiente para captar cada curva humana que se tornará traço de lápis, caneta ou giz, vestígio de aquarela e borro de barra de grafite 6B. Alguns ouvem música pelo fone de ouvido, outros bebem café. A maioria é adulta, mas mais tarde chegaria uma senhora com seus dois filhos gêmeos de 10 anos, Matheus e Marcelo. Os papéis variam entre bloquinhos, sulfites A4 e A3. Ainda assim, tem gente que faz exceção e desenha em superfície ainda maior ou menor. Poucos são aqueles que se satisfazem com a própria produção antes do tempo de pose esgotar.
A outra modelo-vivo, Carla, chegou após a terceira pose de Juliano. Ela seguiu o mesmo ritual do amigo, o de retirar as vestes logo no posto que ocuparia até as 16h30. Ficou de sutiã e bermuda, os cabelos castanhos e ondulados presos. Carla posa há 15 anos, diferente de Juliano, que está no ramo há apenas dois. Tornaram-se amigos enquanto a atriz, professora e graduanda em Letras o incentivava na carreira.
O silêncio pairava por aquela sala. Ora quebrado por algum barulho externo, de carros ou da banda do guitarrista Vasco Faé, que ensaiava ao lado, na sala Adoniran Barbosa. Apesar do rompimento, a concentração coletiva se mantinha. As cabeças se levantavam como vaga-lumes a piscar na escuridão: várias por vez, oscilando. Cada desenhista abordava uma parte do corpo ou tentava, nos curtos espaços de tempo ministrados pela orientadora Denise, incorporar toda a cena. Oswaldo Kiyoshi Murahara, mais conhecido como Shiva, diz: “A gente tenta esvaziar a cabeça e ter mesmo só a percepção da arte, que não é algo feito de palavras, não é uma noção verbal. É uma noção visual”. O artista plástico de 33 anos já foi tatuador, mas há pelo menos seis meses está se dedicando apenas à arte. Ele acompanha a oficina para estudar a anatomia humana. “A oportunidade de ter um modelo estático do corpo humano para você desenhar e também a oportunidade de fazer isso na companhia de outros artistas é muito positiva para o desenvolvimento de suas habilidades. Dá para comparar o seu nível técnico com o de outros artistas”.
O professor Dalton de Luca, que usa aquarela, acabou por fazer algo diferente dos demais participantes: várias poses de Juliano mesclaram-se em uma mesma folha. Ao ser questionado quanto à idéia, Dalton disse que tenta aproveitar todas as poses num só papel. “Às vezes, eu uso as duas partes do caderno para fazer uma pose maior, misturando todas as figuras. Eu acho mais divertido do que fazê-las isoladamente”. Por ser professor, ele afirma que não costuma conferir o trabalho dos outros, senão acaba adotando uma postura crítica. “Eu tenho a chance de vir aqui para não dar aula. É para tentar relaxar. É um complemento fora do meu trabalho e dentro da mesma área em que atuo. Posso ficar tranqüilo e desenhar não como professor, mas como um aluno”.
Dalton não encara a atividade na oficina como um subterfúgio. A concentração, responsável por distinguir artista do mundo exterior, é vista pelo desenhista não somente nesta situação, mas toda vez em que desenha. Para ele, desenhar é “uma maneira de se interar com o mundo e dar uma resposta artística para aquilo que você está vivendo”.
A senhora Tomoko Hagi, de 76 anos, participa dessa mesma oficina de desenho desde 1999. Antes de ter aulas com Paulo Monteiro, artista-símbolo dos anos 80, Tomoko conta que teve mais acesso ao que hoje sabe pelos amigos que fez nesses anos de treino no Centro Cultural. “Eu vim com lápis nº 2, com meu ’sulfitinho’ pequeno e foram os colegas que me falavam ‘Ai, Tomoko isso, Tomoko aquilo’”. Ela, que é uma das veteranas da oficina, conta que se sentia “comprando melancia na farmácia” quando procurava materiais em alguma loja especializada. “Falavam de godê. Nossa! De godê eu conheço só saia godê”.
Depois que se aposentou, a matemática recebeu recomendação de sua médica para que fizesse “coisas bem mais amenas”, como desenhar e pintar. Tomoko, atualmente, usa tinta nanquim. “Procuro novos materiais. Agora estou experimentando desenhar com toalha, para ver se eu consigo alguma coisa nova para expor”, dizia enquanto segurava um pincel de ponta embrulhada por um pedaço de toalha. “É pesquisa mesmo”.
A artista relaciona essa evasão pela arte com sua etnia nipônica: “Isso já vem de tradição. Toda vez que desenho pensando em alguma coisa, com a intenção de mostrar para os outros, não sai nada. É mais para relaxar mesmo, para eu me basear”. Tomoko diz que, por enquanto, não está envolvida em nenhum projeto, mas já fez parte de algumas exposições. Ela também explica que depende muito dos modelos para que possa sentir uma boa energia. “Se eles estão mal, meu desenho fica péssimo”. Naquele dia, ela achou que tudo estava indo muito bem. Inclusive, Tomoko acabou fazendo amizade com uma “coleguinha”, Juliana Tristão, de 18 anos.
A vestibulanda, que irá prestar artes plásticas na Universidade de São Paulo e na Unesp, destaca-se como uma figura jovem de cabelos tingidos de vermelho e piercing no nariz. A aparência de Juliana é contrastante em relação a de Tomoko, uma simpática senhora japonesa de estatura baixa. A estudante, que pretende seguir uma tendência contemporânea em seus futuros trabalhos, concorda com a sua nova amiga que a arte tem que mudar, “sair dessa coisa do barroco. As pessoas ficam bitoladas e eu acho que tem que mudar, mas sem abandonar as artes de antes”.
Juliana, assim como os demais artistas, também acredita na singularidade dos momentos compartilhados entre ela e os modelos, inspiração e base de seus desenhos. “Só se pensa no que se vê. Não há preocupações. Você está completamente concentrado no que vai colocar no papel e no que está observando”. E é justamente essa dedicação que a modelo Carla admira e não o resultado dos trabalhos. “Acho maravilhoso. Eu não consigo desenhar nem um círculo”. Ela revela que não consegue se enxergar nos desenhos e que discorda quando um desenho é considerado ruim. “O processo, a atenção, o olhar e a construção daquilo é que vale. O fim é secundário”. Por ser professora e trabalhar há 15 anos na área, além de ter muito contato com teorias, ela sabe identificar a qualidade dos trabalhos, mas mostra que consegue distinguir aquilo que, isolada e intimamente, acha bom. “Saber que o cara estava ali olhando, desenhando, tentando e buscando: isso é o mais importante”.
O modelo Juliano comenta sobre a diferença dos olhares das pessoas, tanto para o corpo quanto para a situação. “Cada um registra aquilo que tem no seu histórico de vida. Às vezes, você passa a ver que cada um tem um olhar diferente da pose, daquilo que você propôs. Isso faz a gente crescer”. O modelo considera a diferença entre o que ele propôs e o que foi recebido e traduzido pelas pessoas. “Cada um capta aquilo que quer da sua pose. É fabuloso”. Assim como Carla, ele também não acha que exista desenho ruim e concorda com o fato de que é necessário ter um conhecimento em Arte para atuar como modelo-vivo.
Sobre a profissão, Carla diz que, antes de tudo, a pessoa precisa amar o que faz – apesar de achar que isso soa como senso comum. “As profissões em que você sente dor enquanto trabalha, tem que se amar dez vezes mais. Posar é lidar profissionalmente com a dor”. Esse comentário contrasta com o comportamento dos dois modelos durante as poses, já que eles praticamente não demonstram sofrimento em suas expressões.
Ainda assim, Carla não toma essas conseqüências como martírios. “Tem que treinar muito antes de dar a cara para bater. Tem que tentar em casa, ver se vai suportar ficar, às vezes, numa mesma pose, em pé, durante quase cinco horas seguidas. Muitas vezes acontece. Tem que ver como que você lida com isso, porque senão vai acabar fazendo mal”. Ela alerta que não adianta posar de maneira mediana, até porque o mercado está cheio de profissionais dessa qualificação. Também faz a ressalva de que a profissão não é tão competitiva assim porque “poucas pessoas lidam bem com a nudez e poucas pessoas realmente conseguem ficar paradas com expressividade”. Enquanto Carla posa, os reflexos de sua expressividade podem ser observados nos ânimos renovados dos artistas quando ela segura uma sombrinha japonesa ou é enlaçada pelos braços de Juliano .
A modelo iniciou seu trabalho aos 19 anos, pouco depois de ter tido sua primeira experiência no ramo, posando para uma classe sob a sugestão do professor. Ela aceitou o convite: “Eu sentei, posei e gostei muito. Eu já era atriz, tinha feito cenas em que eu ficava muito tempo parada”. Carla nem sabia que a profissão modelo-vivo existia. Quando soube, interessou-se e começou a procurar trabalho. No entanto, quando foi para Portugal, perdeu os contatos que havia reunido no Brasil. Em Lisboa, conheceu um rapaz que trabalhava de modelo-vivo para a Faculdade de Belas Artes. Precisando de dinheiro, Carla pediu para que o artista a avisasse caso aparecesse uma oportunidade para trabalhar lá. Indicada, começou a posar e acabou se apaixonando. “Era como se eu tivesse feito aquilo a minha vida inteira, tanto que ninguém me ensinou a posar”.
O caso de Juliano é outro. Há pouco tempo trabalhando como modelo-vivo, ele começou como estátua-viva numa peça de teatro. Já esteve num papel em que precisou ficar pelo menos quarenta minutos na mesma posição: foi o primeiro contato que fez com a atividade. Assim como Carla, ele também não conhecia a profissão modelo-vivo. “Eu gostei e achei que eu podia, que dava conta de fazer. Fui atrás de mais informações sobre quais lugares precisavam de modelo”. Juliano teve muita ajuda, principalmente de Carla. Assim como ela, o artista também se apaixonou pelo novo trabalho.
Carla comenta que não teve problemas em sua primeira experiência. “Eu não tive nenhum constrangimento. Só houve receio porque nunca tinha visto ninguém posar”, a não ser o modelo que viu durante a aula de que participou, mas havia observado-o rapidamente e logo foi se trocar. Intuitiva, ela conseguiu fazer algo do seu jeito. “Eu me senti extremamente à vontade. Aliás, eu me sinto mais à vontade nua aqui em cima [do palco] posando do que muitas vezes de roupa, na rua”. Juliano costuma comparar seus trabalhos como modelo-vivo com qualquer subida ao palco durante alguma peça de teatro. “Rola um certo nervosismo, mas não é uma coisa muito forte. É aquela tensão pré-estréia de peça”. Apesar de um tanto inseguro em seu primeiro trabalho como modelo-vivo, ele já tinha algumas poses preparadas, estudadas, além de ter treinado antes.
O trabalho fez com que ambos adotassem novas posturas sobre seus corpos. No começo da carreira de Carla, ela pesava cerca de dez quilos a mais do que atualmente. “Para a minha altura, eu era gorda e era muito tranqüilo. Quando você está posando, os olhares não incomodam”. A artista comenta sobre padrões de estética exigidos, por exemplo, pelo campo da moda, em que a preferência é por modelos altos e magros. Carla aposta mais na saúde que na estética. É mais importante considerar a capacidade de se manter firme na pose, de ter força para isso. “A estética preocupa, mas eu conheço modelos maravilhosas que não estão dentro do padrão estético. Eu acho que isso não deve ser uma grande preocupação. Preocupação mesmo é conseguir se manter em forma para segurar a pose, sem se mexer”. Juliano também acredita no olhar do artista como algo favorável à carreira. “Ele foge desses padrões sobre o peso ideal, de estética ideal”. O olhar artístico é a tranqüilidade dos modelos e a saúde é o principal ponto. “Mas é claro que a gente tem algumas preocupações com o corpo. Eu, por exemplo, sempre fui meio magro, então me preocupo em tentar manter essa linha. Tem alguns trabalhos que eu consigo por ser assim”, comenta.
Quanto à personalidade, Carla diz ter mudado muito com sua experiência como modelo vivo. Além de ter ficado admirada com o mundo artístico, onde encontrou pessoas que lhe apresentaram conceitos diferentes, a concentração que o trabalho exige foi o principal motivo da mudança. “Isso é que faz você ter um autocontrole muito maior. Faz você conseguir ficar em silêncio. Na verdade, a nossa profissão vai na contramão da sociedade. A gente trabalha com o não-movimento e com o silêncio”. Carla vê-se como estranha numa sociedade agitada e barulhenta, que não aceita o nu, enquanto ela é uma profissional que trabalham com isso. “A gente está o tempo todo na contramão dos valores culturais brasileiros. Isso ensina muito, inclusive a trabalhar com os preconceitos”.
Juliano sentiu diferença quanto à calma que adquiriu. “É uma paciência que você trabalha consigo mesmo e com quem está te desenhando, com quem está ao seu redor. Isso te deixa mais tranqüilo para os problemas”. Várias vezes o modelo enfrentou situações que, antigamente, ele acabaria se irritando. “Eu me imagino posando e tendo que suportar a dor de uma pose mal caída e tendo que ficar ali vinte minutos. Isso te traz uma serenidade. Eu me sinto mais sereno depois que comecei a posar”.
A mente dos dois, durante seus trabalhos, viaja, como sugeriu Carla, “do sagrado ao profano”. A modelo revela: “Eu penso em tudo. Eu rezo, penso em sexo, nas compras que tenho que fazer a seguir, na prova que vou ter que fazer amanhã, na aula que dei. Quando o grupo está bastante concentrado, num lugar muito silencioso, eu acabo rezando”. Querendo explicar o estado em que se encontra nessas situações, Juliano complementou falando sobre o “estado alfa”. Ele pensa nas histórias que cria para compor a poses, mas “manter esse raciocínio, nessa fluidez, é humanamente impossível. Realmente chega uma hora em que se você não tomar cuidado, desmaia. Você cai”. Juliano também sente a necessidade de orar, em pensar em outra coisa, senão acaba “em alfa e não há quem te tire dali”.
Carla e Juliano nunca têm uma pose pressuposta e, mesmo quando preparam algumas, na hora não cumprem o roteiro. “Depende muito das pessoas, do grupo para o qual você está posando, do barulho que faz na rua”, diz Juliano. O que se precisa saber, no mínimo, é que tipo de pose é possível fazer em cada espaço de tempo. Carla explica: “Você tem que ter essa consciência corporal, do que seu corpo suporta em cada pose”. O resultado é um trabalho tão sincronizado que parece combinado, ou que realmente as mentes dos dois conseguem trabalhar em dupla.
As pessoas saem da oficina felizes. Guardam seus desenhos em pastas, fecham seus cadernos, cumprimentam a dupla de modelos. Alguns perguntam sobre a oficina de quarta-feira, em que a proposta é o nu. A quantidade de pessoas reduz, até porque não é permitido para menores de idade, mas ainda assim há bastante procura. Um dos artistas comenta que até tem gente que vai só para ver modelo sem roupa. Os participantes se sentem prejudicados com isso, afinal, há uma espécie de tratado de confiança travado entre eles e os modelos. Carla e Juliano sequer autorizam fotos, mesmo fora do trabalho.
Veja também
Visite o blog do modelo Juliano Hollivier, que também atua como escritor:
http://www.julianohollivier.blogspot.com/
Originalmente disponível em: http://www.centrocultural.sp.gov.br/saiba_mais/oficinas_modelovivo.asp
Abertura do 7° Fórum de Pesquisa Cásper Líbero
Para inaugurar, a primeira das dezesseis mesas do 7º Fórum de Pesquisa Cásper Líbero, a Profa. Maria Goreti J. Sobrinho contou com a participação do prof. Claudio Pinto para uma breve abertura. Como moderadora, a mesa de Jornalismo e Novas Tecnologias recebeu a Profa. Ms. Daniela Oswald Ramos.
O Prof. Dr. Walter Lima inaugurou as apresentações das pesquisas feitas em 2008, introduzindo seu estudo sobre “Bases Conceituais Visando a Criação de UML para Pesquisa e Validação de Fontes de Informação Jornalística”. Buscando seguir um lado mais teórico a técnico, Walter Lima denotou sobre os recorrentes critérios usados para a escolha de fontes jornalísticas (relevância, popularidade, facilidade etc), para depois, apresentar sua proposta: um software que encontrasse fontes e as ordenasse por acertabilidade, repertório e outros.
A segunda pesquisa, feita pelo Ms. Fernando Correa do Carmo, tomava um assunto bastante em voga no campo da comunicação: “Jornalismo Móvel: Um Estudo do Noticiário Produzido para Celulares”. Ao delinear os caminhos traçados em seu estudo, o pesquisador utilizou estatísticas para validar a importante recorrência ao objeto, uma vez que os aparelhos celulares encontram-se num momento de grande popularidade e constante inovação.
A terceira pesquisadora, Renata Reche Simon Peppe, mostrou que, em seu trabalho, sob o título de “O Surgimento de Um Novo Veículo de Informação”, visou não o fim do jornalismo impresso, mas a evolução das notícias por meio digital. Levando em conta um aspecto mais ambiental, comentou que, além de ter se surpreendido bastante com o que aprendeu durante o estudo, as pessoas devem levar em consideração a escassez de recursos naturais e o considerável aumento na população e na demanda por comunicação a nível mundial.
Para fechar, a aluna da graduação Daniella Fernandes Cambaúva comentou sobre sua iniciação científica acerca de “A Identidade do Jornal Impresso na Era Digital”, tomando como base os jornais O Globo e A Folha de S. Paulo (Conferir se foram esses). Assim como a apresentação anterior, feita por Renata, Daniella também não tinha como pretensão tomar argumentos futurólogos sobre a mídia impressa. A pesquisadora ilustrou os posicionamentos e mudanças ocorridos nos devidos jornais diante da inovação da internet.
Lolita – Uma Eterna Reinvenção
Como o cinema tratou de uma história de uma só fonte
Um dos mais polêmicos romances da História, Lolita, de Vladimir Nobokov, foi publicado em 1955, pouco após ter se refugiado da Europa. As temáticas do escritor russo sempre partiram de situações-limite, como casos incestuosos entre irmãos ou pedofilia. No caso de Lolita, trata-se de uma narrativa em primeira-pessoa, feita pelo também personagem Humbert Humbert, um filho do Velho Mundo que se abrigou no Novo, onde conheceu a ninfeta que dá nome ao livro. Literato, o protagonista, ao escrever, utiliza-se de todas as armas que a Língua pode lhe proporcionar para não se fazer tão nefasto. A obra recebeu duas adaptações cinematográficas, uma feita por Stanley Kubrick, em 1962, e outra por Adrian Lyne, em 97.
Kubrick, ao perceber o ponto de vista unilateral do livro, nota também que não dá para saber direito como, de fato, são as personagens e como tudo ocorreu. Preferindo começar o filme pelo final da história, em que Humbert comete o crime que o levou à cadeia, as primeiras cenas são de um altíssimo nível artístico conforme a vítima, interpretada por Peter Sellers, segue o ritmo avassalador do assassinato transcrito na obra literária. Já Adrian, começou o filme com um flashback da infância do narrador, da paixão pela ninfeta Annabelle, a musa de sua pedofilia que havia o levado à depressão e a internações em hospícios (dados não apresentados em nenhum filme).
Nenhum cineasta propôs-se a relatar o que aconteceu com Humbert na Europa, como seu primeiro casamento ou o terceiro, já nos Estados Unidos, após ser deixado por Lolita. Também não resolveram assimilar os constantes comentários narrativos com voz em off. Porém, ambos diretores seguiram o mesmo encontro entre Lolita e Humbert disposto pelo livro: na piazza da casa Haze, enquanto a viúva Charlotte, com quem, mais tarde, viria a se casar, apresentava a residência.
O engraçado é que em nenhuma oportunidade Lolita foi fisicamente fiel àquela descrita no livro. Kubrick fê-la loira, de cabelos lisos, pálida e de olhos claros; Lyne fê-la ruiva, de cabelos lisos e constantemente presos em tranças, pálida, de olhos azuis e aparelho ortodôntico nos dentes. Ambas as atrizes Dominique Swain e Sue Lyon são muito bonitas demais para serem a Lolita de Nobokov, que era, de certa forma, uma garota não muito atraente, um tanto descuidada, de pele bronzeada, cachos castanhos, olhos acinzentados e sardas no rosto.
Os comportamentos da ninfeta, sexualizados pelo narrador, só foram aparentes com Lyne (precisaram esperar Dominique completar 18 anos). São encenados vários beijos, alguns até inexistentes na narrativa original, e o primeiro contato sexual entre Humbert e ela, apenas suposto. Kubrick não filmou nada disso, pelo contrário, fez uma Lolita pura e infantil, ainda que muito esperta, enquanto Humbert tornou-se um doentio apaixonado, a ponto de ficar embasbacado. Sue tinha 14 anos quando o filme foi gravado.
Quanto à fidelidade das adaptações, a linearidade é melhor seguida por Lyne. Kubrick resolveu inventar cenas de contextualização, como a do baile, em que aparece o roteirista Quilty, futuro amante de Lolita e vítima de Humbert, e a cena em que Humbert pintas as unhas dos pés de Lô. Apesar disso, o filme mais antigo explora muito bem as qualidades do ator Peter Sellers que, ao adotar a capacidade camaleônica de Quilty, transforma-se em milhares de personagens. Houve até mesmo um trabalho com a voz de Sellers. Nesta abordagem, também foi inventada uma cena em que Quilty, disfarçado de psicólogo, visita a casa de Humbert.
A preferência dada à obra de Lyne parte da preocupação dada à postura do narrador-personagem, apesar de os leitores de Lolita não poderem se deixar levar pela lábia de um exímio escritor como Prof. Humbert (ou seria o próprio Nabokov?). A forma como ele vê as coisas é seguida com rigidez. A garota de doze anos não é tão ingênua assim: ela provoca, seduz e gosta disso, apesar de se cansar, depois. Assim, então, ela não fugiu de Humbert “só” porque estava cansada de sofrer, mas porque é mesmo uma danada, uma garota tola. Humbert fazia de tudo para ela: dava-lhe presentes, doces e carinhos. Ela ter se casado com Dick e ter engravidado dele, ter se “envelhecido” tão precocemente, foi tido como uma falha. Tudo isso, visão de Humbert muito bem transposta por Lyne.
Ou seja, Humbert consegue sair como quis sair de seu livro: um pedófilo sim, mas não um monstro; culpado sim, mas por ter amado demais. Toda a cordialidade e o requinte do personagem fizeram com que ele se apresentasse como um senhor distinto até mesmo ao cometer crimes como pedofilia e homicídio. É a ilusão da unilateralidade. Kubrick não se deixou seduzir por esse refinado europeu. Ridicularizou-o como doméstica, como louco a se espernear pela fuga de Lolita, como um frouxo ao tentar matar Quilty. Ademais, os intérpretes de Humbert Humbert também se distinguem entre si: Jeremy Irons remete a sensualidade de um homem mais velho e mantém a postura europeia, enquanto James Mason incorpora o meio sorriso parodiado do pedófilo depravado e obcecado.



