Efeito placebo num show esbranquiçado
Sem querer estagnar, a banda inglesa Placebo deixa alguns fãs nostálgicos decepcionados

foto de Daigo Oliva
Gente berrando para garantir seu lugar na fila: “Sai! Eu estou aqui desde meio dia!”; pessoas sentadas ao redor da fonte e sobre as calçadas do Credicard Hall, na noite de sábado, 17. Depois de três anos, a banda inglesa Placebo volta para o Brasil com baterista novo, Steve Forrest, e participação especial de Fiona Brice no teclado, theremin, violino e vocais de apoio.
Reunindo 4 mil espectadores, o show foi aberto pela banda paulistana Superdose. As músicas próprias, como Cidade Luz, eram composições em português anunciadas com clichês do tipo “essa é para a galera do rock’n’roll”. É óbvio. Ainda que os telões do local anunciassem um show do cantor Belo, durante os intervalos, ali estavam reunidos milhares de fãs que representavam a antiga fase do Placebo, mais dark, e a atual, segundo os próprios artistas, mais pop e leve.
Quem comprou Platéia Premium, apesar de estar mais perto do palco, não foi tão feliz assim: o preço relativamente próximo do oferecido pela Platéia Comum fez com que bastante gente preenchesse o espaço. Mas quem permaneceu do lado esquerdo do palco pôde contemplar com mais facilidade a figura menos andrógina de Brian Molko, que começou o show pontualmente, às 22 horas. O cantor de 37 anos e pai de Cody, com a intensidade do lápis de olho reduzido e batom mais discreto, já não mais se preocupa em reduzir sua virilidade. Battle for the Sun (2009) é um álbum de mudanças, de elevação dos ânimos baixos carregados há mais de dez anos.
A simplicidade do show não esteve somente no figurino predominantemente branco, senão pela camisa de Molko e as vestes dos músicos de apoio (Nick Gavrilovic e Bill Lloyd). O jogo de luzes variou entre o branco, vermelho, amarelo e azul. Fiona, de vestido branco e cabelos loiros, ao ser iluminada pela luz alva, fazia inveja ao anjo Gabriel em representações d’A Anunciação. A energia ficou concentrada no baixista Stefan Osdal.
Os fãs de coturno, calça de couro e maquiagem preta não conseguiram achar ali o mesmo Placebo de 1994. “Joguei meu dinheiro no lixo”, um deles se pronunciou, no fim de exatos 90 minutos de show. Mas os gritos não foram menores por isso. A apresentação, iniciada com For what is worth, ganhou mais ânimo em Battle for the Sun, quando, aos pulos, a platéia cantava junto aos versos repetitivos. As músicas dos outros álbuns foram escolhidas na intenção de agradar a todos: Every You Every Me, Special K e Special Needs foram as mais acompanhadas. Destas composições antigas, a única que deixou a desejar foi Meds, iniciada em marcha lenta e finalizada no mesmo, senão pelo dedo que Molko levou à boca e à loucura dos fãs.
A acústica do Credicard Hall ajudou a performance da banda. Bem reproduzidas ao vivo, as músicas não abalaram Molko, que manteve sua voz idêntica às gravações em estúdio. Sem muito interagir com o público, como de costume, o vocalista só fez comentários sobre a música Speaking in tongues, quanto a programas de televisão que mostram pastores “possuídos por Jesus”, e pediu para que o público cantasse ainda mais alto em The Bitter End, uma das músicas finais.
O show agradou, mas falhou no exagero de simplicidade visual (telão com videoarte) e por não conseguir sobrepor a nostalgia dos fãs. Mais que o preço, um dos motivos que minguou a platéia foi o temor de perder de vista a antiga imagem do Placebo: um Molko andrógino, de vestido e batom vermelho, e a melancolia de músicas como Blind, Sleeping with ghosts e Without you I’m nothing. Esse toque mesmo só foi levemente atenuado com Follow the cops back home.
SETLIST
1- For What It’s Worth
2- Ashtray Heart
3- Battle For The Sun
4- Soulmates
5- Speak In Tongues
6- Follow The Cops Back Home
7- Every You Every Me
8- Special Needs
9- Breathe Underwater
10- Julien
11- The Never-Ending Why
12- Bright Lights
13- Devil In The Details
14- Meds
15- Song To Say Goodbye
16- Special K
17- The Bitter End
Encore
18- Trigger Happy
19- Infra-red
20- Taste In Men
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